Assunto em andamento. Texto atualizado até 7 de novembro de 2026.

O que Lara Resende propôs

Em 25 de setembro de 2026, Lara Resende publicou no seu Substack o artigo "Eu Acuso: uma proposta para eliminar os juros absurdos". O texto voltou ao noticiário em 1º de novembro, quando o colunista Lauro Jardim, de O Globo, noticiou um possível encontro do economista com o presidente Lula (InvestNews, 03/11/2026). A proposta tem três partes:

O argumento central é fiscal. Nos 12 meses até setembro, os juros da dívida custaram R$ 1,205 trilhão, ou 8,99% do PIB, enquanto o déficit primário foi de 0,52% do PIB e a dívida bruta chegou a 82,9% do PIB (InvestNews, 03/11/2026). Com o custo médio da dívida em 12,63% ao ano e o PIB nominal crescendo perto de 7%, Lara Resende afirma que nenhum ajuste de gastos estabilizaria a dívida "sem causar uma recessão profunda". Em entrevista publicada em 6 de novembro, ele disse que os 7,5% são um número indicativo e que o ritmo dependeria das condições da economia (InfoMoney, 06/11/2026).

O limite prático: a autonomia do Banco Central

Desde a Lei Complementar 179, de 2021, o Banco Central tem autonomia operacional, e seus diretores cumprem mandatos fixos. Quem define a Selic é o Copom, e o presidente da República não pode reduzir a taxa por decisão própria. O conselho proposto dependeria de aprovação do Congresso, e o governo não apresentou nenhum projeto nesse sentido (InfoMoney, 06/11/2026).

Mesmo entre os simpatizantes da ideia no campo do governo, o limite foi reconhecido. José Sérgio Gabrielli, coordenador do programa de governo, escreveu que a coordenação entre política fiscal e monetária deve preservar um Banco Central autônomo, com o Copom definindo a Selic (Times Brasil, 02/11/2026).

Os argumentos a favor

Lara Resende parte de um diagnóstico que, segundo ele, é consensual: "Todos estão de acordo: a taxa de juros é um problema". Ele rejeita a leitura de que proponha tabelar juros e chama essa interpretação de "distorção de má-fé" do que propôs (O Brasilianista, 04/11/2026).

A economista Carla Beni, professora da FGV, afirma que juros e amortização respondem por 46% da despesa pública e que, por isso, cortes de gastos sozinhos não resolvem a dívida. Para ela, o mais importante agora é abrir o debate. Newton Marques, ex-professor da UnB e ex-servidor do Banco Central, chamou a proposta de "novo, ousado e desafiante" e disse que economistas ortodoxos não aceitam discutir o nível da Selic (O Brasilianista, 04/11/2026).

Gabrielli disse que um mecanismo mais amplo que o Conselho Monetário Nacional para coordenar as duas políticas "merece atenção especial". Pelas contas dele, estabilizar a dívida em 2027 com juros de 11,4% exigiria um superávit primário de 3,41% do PIB, cerca de R$ 466 bilhões (Times Brasil, 02/11/2026). A ex-ministra Gleisi Hoffmann elogiou o artigo, mas disse que discutir uma ideia não significa adotá-la (InvestNews, 03/11/2026).

Os argumentos contra

A crítica mais repetida é que juros abaixo do nível compatível com a meta estimulam a demanda e pressionam os preços. Felipe Miranda, fundador da Empiricus, disse admirar o autor, mas achar a proposta "muito ruim". Para ele, com a Selic a 7,5%, o juro real ficaria abaixo do neutro, e a menor diferença em relação aos juros externos poderia provocar fuga de capitais e alta do dólar (Times Brasil, 02/11/2026).

José Luis Oreiro, professor da UnB, concorda que os juros pesam sobre a dívida, mas diz que a proposta "padece de um voluntarismo ingênuo": os títulos atrelados à Selic e a livre movimentação de capitais tornariam o corte inviável sem mudanças anteriores. Ana Paula Vescovi, ex-secretária do Tesouro, criticou o uso das reservas: "Transformá-las no cheque especial de uma aposta monetária é uma temeridade" (Times Brasil, 02/11/2026).

Depois do Copom, Gustavo Sung, da Suno Research, lembrou que os cortes de 2011 não trouxeram o investimento esperado, e Sérgio Samuel dos Santos, do Sistema Ailos, disse que o debate "confunde o sintoma com a causa" (ND Mais, 05/11/2026). John Cochrane, economista de Stanford citado por Lara Resende como referência teórica, condiciona o efeito positivo de juros menores à confiança dos investidores em superávits duradouros (Gazeta do Povo, 05/11/2026).

O que disseram o governo e o Banco Central

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, chamou a ideia de "incipiente", disse que ela tem "várias deficiências" e afirmou: "não há nada nesse sentido sobre a mesa" (Times Brasil, 03/11/2026). Ele negou uma reunião entre Lula e Lara Resende, e o próprio economista disse que não falou com o presidente nem tem nada marcado (InfoMoney, 06/11/2026). Até 7 de novembro, Lula não havia comentado a proposta em público. Segundo o Estadão, citado pela Gazeta do Povo, um pronunciamento do presidente sobre metas fiscais estava previsto para 8 de novembro.

O Banco Central não comentou a proposta. Em 4 de novembro, o Copom manteve a Selic em 13,75% por unanimidade, interrompeu o ciclo de cortes iniciado em março e elevou a projeção de inflação para 2026 de 5,2% para 5,6% (Money Times, 04/11/2026). Economistas ouvidos pela Forbes Brasil disseram não ser possível separar quanto da alta dos juros futuros veio da proposta e quanto da incerteza fiscal geral (Forbes Brasil, 04/11/2026).

13,75%
Selic hoje
Mantida pelo Copom em 04/11
~7,5%
Proposta em 12 meses
Número indicativo, segundo o autor
3% a 5,5%
Faixa depois da transição
Definida pelo conselho proposto
15,37%
DI jan/2031
Taxa de 03/11/2026

O que muda para quem compra imóvel no Litoral Norte

A proposta pode não sair do papel, mas o debate já mexe nos preços que importam para quem compra. Os cenários abaixo não são previsões. Servem para separar o efeito de juros mais baixos e de juros mais altos sobre quatro pontos da decisão.

Financiamento

O crédito imobiliário de longo prazo responde mais aos juros futuros do que à Selic do mês. Em 3 de novembro, o DI para janeiro de 2031 estava em 15,37%, acima da própria Selic (Gazeta do Povo, 05/11/2026). Se uma queda de juros vier acompanhada de credibilidade fiscal, as taxas longas tendem a cair junto, e as novas propostas de financiamento ficam mais baratas. Se vier sem ela, o mercado pode cobrar mais nos prazos longos, e o financiamento pode encarecer mesmo com a Selic em queda. O guia de financiamento no Litoral Norte mostra como comparar as propostas dos bancos.

Custo de oportunidade

Quem compra à vista troca o rendimento de uma aplicação pelo imóvel. Com a Selic em 13,75%, o CDI remunera bem, e adiar a compra custa pouco. Num cenário de Selic perto de 7,5%, essa conta mudaria. A poupança, por exemplo, passa a render 70% da Selic mais TR sempre que a taxa fica em 8,5% ou menos, pela regra em vigor desde 2012. Juros mais baixos reduzem o prêmio de manter o dinheiro aplicado, e juros altos por mais tempo o preservam.

Valorização

Juros menores costumam aumentar a procura por imóveis e terrenos, porque o crédito fica mais acessível e a renda fixa rende menos. O risco é o caminho apontado pelos críticos: se o corte trouxer mais inflação e dólar alto, a alta nominal do imóvel pode vir acompanhada de perda de poder de compra. Com juros altos por mais tempo, a demanda financiada tende a esfriar, e a negociação fica mais favorável a quem compra com recursos próprios. Os índices e o histórico da região estão na página do investidor.

INCC das parcelas

Quem compra na planta paga parcelas corrigidas pelo INCC, que acumulou 6,75% em 12 meses até outubro (FGV, 27/10/2026). O índice acompanha salários e materiais da construção. Se juros mais baixos aquecerem a economia, a mão de obra tende a pressionar o INCC, e um dólar mais alto encarece os materiais com componente importado. Com juros altos e atividade mais fraca, como o Copom descreveu em 4 de novembro, a pressão sobre o índice tende a ser menor. A calculadora do site simula a correção das parcelas com o índice real.

CenárioFinanciamentoCusto de oportunidadeParcelas pelo INCC
Juros caem com credibilidade fiscalNovas taxas tendem a cairEsperar rende menosPressão moderada se a atividade acelerar
Juros caem sem credibilidade fiscalTaxas longas podem subirRende menos, com inflação e dólar maioresPressão maior por câmbio e salários
Selic alta por mais tempoTaxas estáveis em nível altoEsperar continua rendendoPressão menor com a atividade mais fraca

Para a decisão de compra: a pergunta útil não é se a proposta vai passar, e sim quanto do seu plano depende de juros. Quem compra com recursos próprios está menos exposto a esse debate do que quem depende de financiamento de longo prazo. A análise do ciclo de cortes de 2026 está em Selic e imóvel no Litoral Norte, e os números do mês, no relatório de outubro.

Fontes

Quer saber quanto o seu plano depende dos juros?

Simulo com você financiamento, pagamento à vista e correção pelo INCC com os números de hoje, sem compromisso.

Falar com Giovani → Usar a calculadora
← Anterior: Selic e imóvel no Litoral Norte Ver todos os artigos →